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Entrevista à revista Gerenciamento Ambiental Imprimir E-mail
Maio/Junho 2003


1) Como a Luftech vê a prática da incineraçao no Brasil? É ainda pouco utilizada? O que fazer para alavancar o mercado?

Germano: O Brasil possui boas tecnologias de incineração, tanto vindas do exterior quanto desenvolvidas aqui. A Luftech mantém uma parceria com a UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul) e com especialistas da Alemanha para desenvolvimento de suas tecnologias. Mas apesar dos avanços tecnológicos a incineração no Brasil é muito incipiente. Apenas 0,5 % do lixo recolhido no Brasil é incinerado, contra 80% na Suíça e 77% no Japão. Para alavancar este mercado é necessário divulgar o atual estado da arte da incineração e os benefícios que esta traz. É preciso, antes de mais nada, espantar os fantasmas do passado, da incineração suja e poluente.

2) A Luftech apresenta tecnologia diferenciada na prática da incineraçao? Quais sao os pontos fortes do trabalho da Luftech ?

Germano: A Luftech trabalha com uma tecnologia alemã, além de contínuamente desenvolver tecnologias próprias. A tecnologia Luftech é de leito fixo, que funciona com uma câmara de gaseificação e três de combustão, sendo a última ciclonada. Após estas etapas o gás segue para o lavador de gases. O principal diferencial da tecnologia Luftech é ser de autocombustão, o próprio lixo é o combustível, eliminando gastos com o combustível auxiliar.
A Luftech realizou também uma parceria com um grupo coreano para desenvolver uma nova tecnologia de incineração no país. A empresa resultante desta parceria é a URI Soluções Ambientais, que fabrica incineradores de grande porte, até 100 ton/dia. O principal diferencial desta tecnologia é o sistema de limpeza de gases, que não necessita de água: o Vortex Super Ciclone. Este equipamento funciona por meio da ciclonagem de gases e por diferenças internas de pressão. É a única no Brasil a fabricar o equipamento. O mesmo deverá estar sendo ofertado ao mercado em fins de junho este ano.

3) A incineraçao ainda é vista como uma prática poluidora, nociva à saude e prejudicial ao meio ambiente ?

Germano: Em grande parte sim, mas há muitas pessoas bem informadas. É necessário disseminar mais informações sobre soluções para resíduos. A questão da incineração é muito ideológica, o que antigamente era importante. Hoje precisamos trazê-la para o plano técnico-científico.
Já em 1988 a EPA, Agência de Proteção Ambiental dos EUA, colocou em uma publicação sobre incineração que "É preferível reduzir permanentemente riscos à saúde humana e ao ambiente através de tratamentos que destruam ou permanentemente reduzam as características tóxicas do material, do que depositar a longo prazo em estruturas baseadas em terra."

4) Quais os avanços, do ponto de vista ambiental, conquistados nos últimos anos com a utilizaçao dessa técnica?

Germano: A contaminação dos mananciais hídricos, da terra e do ar por lixões causam grandes estragos para o meio ambiente e a população, o quê está sendo gradativamente revertido na Europa. A partir de 2005 na União Européia não poderá mais ser depositado lixo em aterros sem tratamento prévio, e a sua solução preferencial é a incineração.
Outra grande conquista é a geração de energia. Produzir energia elétrica é quase sempre um grande impacto ambiental, seja por hidrelétricas, termoelétricas, usinas nucleares ou outras. Reciclar a energia do lixo está sendo uma solução para dois problemas ao mesmo tempo na Europa, Japão e alguns outros países. A incineração é muito vista como desperdício de recursos. Na realidade é também uma reciclagem, só que reciclagem de energia.

5) Dos resíduos processados anualmente, quantos são destinados ao processo de incineraçao?

Germano: Segundo estatísticas do IBGE (2000) cerca de 0,5% do lixo coletado no Brasil é incinerado.

6) Sob o ponto de vista econômico a utilizaçao dessa técnica é viável?

Germano: Em um estado de direito o econômico deve se dobrar à legislação, que defende as necessidades e direitos da sociedade.
A incineração é realmente considerada cara por algumas pessoas. Outras lucram incinerando e vendendo energia, serviços, vapor. Esta tecnologia é cara se comparada ao simples depósito de lixo em aterros irregulares, banhados ou terrenos baldios, como ocorre com a maior parte do lixo brasileiro. Mas se o aterro for realizado de acordo com as normas legais, a incineração não fica tão cara assim. E a fiscalização, tanto pelo governo quanto pela sociedade, está cada vez mais atenta.

7) Quais tipos de resíduos mais se utilizam desse processo?

Germano: O maior mercado de incineração atualmente é de hospítais e aeroportos. Em ambos os casos há perigo de contaminação biológica, química ou física com os resíduos, e por isso devem ser incinerados.
Com a nova resolução do Conama (316/2002), que regulamenta a incineração dos resíduos, o mercado de incineração crescerá muito, principalmente para lixo industrial e doméstico. Em vários ramos industriais o calor e o vapor são produtos muito utilizados, implicando em gastos de combustível. A Luftech sugere substituir a compra de combustível pela incineração de resíduos.

8) Quanto ainda o mercado pode crescer?

Germano: O Brasil, por ser um país de grande extensão, provavelmente terá no futuro uma destinação de resíduos sólidos mais semelhante aos Estados Unidos do que à Europa. Nos EUA cerca de 17% do lixo é incinerado, contra 0,5% no Brasil. Ainda há um longo caminho pela frente, e grandes possibilidades de crescimento em todos os sentidos.

9) Como a Luftech vê os caminhos da incineraçao no Brasil"?

Germano: O primeiro passo, a regulamentação legal federal, está dado. Agora os estados precisam ter a possibilidade de licenciar incineradores, o quê em quase todo o Brasil ainda é uma grande dificuldade. É necessário difundir informações sobre a incineração e conscientizar sobre os perigos do lixo não tratado. Na definição da matriz energética brasileira, a energia do lixo também pode ser contemplada. Igualmente linhas de crédito para incineração são muito importantes para possibilitar aos municípios, hospitais e empresas instalarem estes equipamentos.

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