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:: Entrevistas
Entrevista à Revista Courobusiness
Setembro/Outubro 2003
Courobusiness: Em geral, as pesquisas neste campo de tecnologia de reciclagem têm forte apelo financeiro, mas ao mesmo tempo vão de encontro às grandes empresas fornecedoras de produtos químicos voltados ao curtimento, como o cromo. A questão é: o senhor acredita que as pesquisas com objetivo de diminuir os gastos na importação de material industrial encontram limites e até adversários no mercado?
Eng. Germano: Sim, os interesses econômicos sempre são um empecilho à implantação da reciclagem. No caso do cromo, se for utilizada a tecnologia de recuperação em escala maior, precisamos considerar uma reação das fornecedoras de cromo virgem. Outra pressão econômica é das alternativas baratas mas irregulares de disposição do resíduo, exercida principalmente por empresas de aterro ou entulho. Infelizmente no Brasil a fiscalização é insuficiente e grande parte dos resíduos é descartada de forma incorreta.
Prof. Celso B. Martins: Não! A incineração pelo processo de gaseificação e combustão combinadas (GCC), vem demonstrando ser um procedimento correto como método de processamento do resíduo industrial não reciclável. Esta tecnologia representa uma solução imediata para o problema, ao possibilitar a recuperação do o cromo e energia térmica que retornam como principais benefícios econômico e ambiental.
Courobusiness: O projeto piloto foi desenvolvido com a parceria da empresa Luftech, entre outras. Outras máquinas de incineração disponíveis no mercado também seriam adequadas para a utilização da tecnologia proposta?
Prof. Celso B. Martins: Não. A incineração de resíduos orgânicos perigosos não pode ser improvisada. Para cada tipo de resíduo há necessidade de um projeto específico. O couro não foge a regra e, alem da economia de escala a destruição de uma estrutura estável como a do couro, de forma segura, esbarra em obstáculos físico-químicos que regem as fases do processo.
Courobusiness: No último ano, a revista tem recebido, com satisfação, diversas sugestões de reportagem com outras iniciativas no campo de pesquisas no setor. O senhor acredita que este movimento é recente no país? Por que a preocupação com a geração de resíduos vem aumentando? Como está o Brasil neste campo em relação a outros países?
Eng. Germano: No cenário internacional a pesquisa com reciclagem de resíduos industriais, seja da matéria ou da energia, é realizada há bastante tempo. No Brasil a preocupação é mais recente, pois o desenvolvimento industrial, as normas legais e a fiscalização também são mais recentes. Hoje em dia o Brasil está crescendo nesta área, o que é demonstrado também com esta pesquisa, que oferece uma solução nos padrões tecnológicos internacionais com aplicabilidade econômica adequada para o Brasil.
As empresas vem acumulando resíduos nos seus pátios sem ter solução para eles, o que representa uma bomba-relógio em termos de passivo ambiental. É motivo suficiente para gerar preocupação nas empresas. Atualmente o Brasil possui uma ótima legislação, mas pouca fiscalização.
Courobusiness: Uma explicação técnica: por se tratar de uma questão muito específica, gostaria de uma explicação sobre o papel da geração de vapor num curtume e sobre o que significa uma geração de 350kwh para um curtume de tamanho médio, como proposto no exemplo de vocês.
Eng. Germano: O processo de curtimento necessita de uma grande quantidade de vapor e calor. Um curtume modelo, com a caldeira regulada, trocador de calor e todo o processo otimizado, gasta 0,009 m3 de lenha de acácia por m2 de couro para todo o processo de curtimento de couro para calçado, desde o wet-blue até o acabamento. Em curtumes não otimizados, que é o caso normal, o consumo é maior. Um m3 de lenha de acácia custa R$ 45,00 no Vale do Sinos, e seu rendimento energético é 4200 a 4600 kcal/kg. Um curtume pequeno, com produção de 900 m2 de couro por dia, necessita de 1153,59 kwh de energia calorífica, e o incinerador em questão produz 350 kwh com 70 kg/h de resíduo. No processo completo de curtimento, um m2 de couro gera 2-4 kg de aparas, então, para os 900 m2 de couro são gerados cerca de 2700 kg de aparas, sendo possível manter funcionando apenas com os resíduos deste curtume um incinerador de 100 kg/h. Concluindo, a energia do incinerador pode gerar mais de um terço do calor necessário no curtume, representando, no exemplo citado, uma economia real de R$ 2.500,00 ao mês.
Courobusiness: Existe alguma previsão de aplicação desta tecnologia em escala maior, ainda que apenas no RS? Os curtumes se mostram interessados? Qual o custo para implantar este novo sistema?
Eng. Germano: Esperamos que esta tecnologia possa ser aplicada em todo o país, também nos pólos coureiro-calçadistas de São Paulo e Mato Grosso do Sul, que tem crescido muito nos últimos anos. A aplicação da tecnologia também depende da fiscalização, pois enquanto houver empresas descartando resíduos irregularmente, a instalação de tecnologias ecologicamente corretas reduzem a competitividade da indústria em um primeiro momento.
Os curtumes contatados até agora se mostraram muito interessados, pois a tecnologia possibilita redução de custos em três frentes: disposição de resíduos perigosos, compra de lenha para caldeiras e na compra de cromo.
O custo para implantação do sistema se divide em três partes: o incinerador, o lavador de gases e o monitoramento contínuo. O incinerador-modelo instalado, com capacidade para incinerar 70 kg/hora, custa cerca de R$ 170.000,00. O lavador de gases da planta de teste ainda não está avaliado, mas estimamos seu custo em R$ 150.000,00. O monitoramento contínuo dos gases custa, em média, R$ 160.000,00, mas a Luftech está buscando alternativas para redução deste valor.
Prof. Celso B. Martins: Sim. Este trabalho tem despertado interesse de grandes grupos e a implantação vai depender de resultados da pesquisa comprovando que o processo é seguro para o meio ambiente e economicamente viável.
Luiz Antônio Borges Germano da Silva – diretor da LUFTECH Soluções Ambientais, atua no setor ambiental há 13 anos. É Engenheiro Mecânico pós graduado em Metalúrgica e Materiais, com MBA em Gestão Empresarial. Entre os vários cursos realizados ressaltamos os seguintes: Tecnologias Limpas e Ecobusiness, Legislação Ambiental, Auditoria Ambiental e Economia Ambiental. A formação em engenharia, complementada por cursos na área ambiental, viagens internacionais e participação em inúmeros eventos da área completam o perfil de um profissional que une compromisso com o meio ambiente, visão e conhecimento técnico para encontrar soluções para problemas ambientais da indústria.
Celso Brizolara Martins é Engenheiro Químico Industrial, consultor do Laboratório de Processamento de Resíduos do Departamento de Engenharia Química da UFRGS. É especialista em Combustão Industrial, Ciência dos Materiais, Projetos Industriais e Defensivos Agrícolas. Destaca-se por sua atuação na indústria em cargos de direção, o que lhe conferiu, além do conhecimento acadêmico, uma base prática nos assuntos que envolvem pesquisa e desenvolvimento.
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